A tarde ia a meio quando pediu pão com manteiga, que pousou em cima da bancada, para ir calçar umas botas de borracha. Havia lama na rua e sabia que não podia sujar as sapatilhas. A avó ainda lhe perguntou para que eram as botas. Respondeu apenas: “porque eu quero”. Na cozinha, a preparar o jantar, teve um pressentimento quando não o viu a brincar lá fora. Pediu à filha, Filipa, para ir ver do menino a casa das primas ou dos vizinhos gémeos. A aflição nunca mais os largou até se concretizarem os piores receios: a criança estava dentro da água de esgoto, no terreno de um vizinho.
Eram já quase 20h00 quando uma prima deu o alerta porque lhe “cheirou a fossa”. Estava partida, gritou. O pai do menino não pensou duas vezes e, depois de arrastar o resto da tampa, atirou-se lá para dentro. Quando saiu, a criança estava fria e não respirava. “O meu filho está morto”, terá dito. Mas Santiago não morreu. Ninguém sabe, exactamente, quantos minutos terá estado dentro da fossa, sem que o cérebro recebesse oxigénio. Voltou a dar sinais de vida, após uma hora a receber assistência por parte da equipa do INEM.
Oito meses depois do fatídico dia, a família ainda não consegue explicar o que realmente aconteceu. Não se sabe se a tampa da fossa estava aberta ou foi remexida pela criança. As fitas da PSP continuam no local da tragédia. A avó do menino confessa que nunca mais lá foi e mal consegue olhar naquela direcção.
“Tinha medo da estrada por causa dos carros mas nunca imaginei que tivesse este perigo aqui à porta. Eu já dizia que o tinham roubado”, recorda com voz trémula. Por ter estado bastante tempo no fundo da fossa, Santiago ficou com uma paralisia cerebral muito grave. Não fala, não vê, não anda e come através de uma sonda. Completou seis anos a 23 de Dezembro.
Depois do acidente o menino esteve um mês e cinco dias internado nos Cuidados Intensivos do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, e mais oito dias na enfermaria. Seguiram-se quatro meses de terapia e reabilitação em Alcoitão. Em Outubro avisaram a família que ia ter alta. As más notícias vieram na segunda-feira, 13 de Janeiro, numa consulta de rotina de Neurologia. A médica disse que a criança pouco mais vai recuperar. A família recusa aceitar este diagnóstico. “O Santiago precisa de viver, de brincar e de ser feliz como os outros meninos”, refere a chorar.
Santiago ainda conserva a audição e reage a pequenos estímulos, tais como música. A tia Filipa coloca uma das suas músicas preferidas a tocar no telemóvel e ele esboça um sorriso. Cada reacção é uma vitória. Também o olfacto não foi afectado e mostra alguma sensibilidade ao toque. É devido a estes sinais que a família acredita que, se devidamente estimulado, pode apresentar melhorias.
Santiago frequenta, actualmente, o Centro de Integração e Reabilitação de Tomar (CIRE) mas, apesar de estar a ser bem tratado, a família pretendia que estivesse numa instituição onde pudesse ser mais estimulado e sujeito a outras terapias. Um tratamento no estrangeiro, onde a medicina já ganhou outro avanço, era outro dos desejos desta família tomarense.
“O meu menino é um herói. Lutou pela vida quando todos a davam como perdida. Quem somos nós para desistir?”, atestam. Santiago ainda vai conseguir completar o desenho da flor que deixou a meio na escola, acreditam. O irmão mais novo, que nasceu em Dezembro, chama-se Salvador.
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